Chegando ao fim de 2024, vamos refletir sobre os pontos principais deste ano no sector da energia. Portugal consolidou a sua posição como um líder no mercado das energias renováveis: mais de 70% do consumo elétrico em 2024 foi abastecido por fontes renováveis, nomeadamente hídrica, eólica e solar[1]. Em março de 2024, o total da produção renovável excedeu o total de consumo elétrico. Embora tenha havido períodos de necessidade de importação ou utilização de centrais fósseis, a produção renovável compensou largamente estas necessidades e este nível de produção representa uma meta importante que reflete o empenho de Portugal em cumprir com os objetivos ambiciosos de neutralidade carbónica para 2030[2].
2024 também se destacou pelo estabelecimento de mais de 100 comunidades de energia renovável – CER (ou autoconsumos coletivos – ACC). Apesar de o processo de licenciamento ainda ser complexo e moroso, existem hoje mais de 100 ACCs em Portugal, envolvendo os consumidores finais em num objetivo de sustentabilidade através de produção renovável distribuída entre vizinhos[3]. Estas comunidades estão, de facto, a promover eficiência energética não apenas a nível individual, mas principalmente numa estratégia holística e coesiva entre consumidores finais.
Europa: um ano de integração e inovação
A nível europeu, a integração de soluções de armazenamento de energia estiveram no topo da agenda dos países. Com mais de 200 GWh instalados, a Europa duplicou a sua capacidade face a 2022[4]. Adicionalmente, as energias de fontes renováveis contribuíram para 45% do consumo elétrico total na União Europeia, uma contribuição 12,4% superior comparada com a registada em 2022[5] Apesar de um impacte positivo na redução de emissões de gases com efeito de estufa, estas fontes de energia têm intrinsecamente uma maior volatilidade, imprevisibilidade e intermitência na rede, o que implica um crescimento no investimento da estabilização na rede
A estabilização da rede é conseguida através dos sistemas de armazenamento, que conseguem armazenar energia em períodos de maior produção e menor consumo, e disponibilizá-la nos períodos opostos. Adicionalmente, as estratégias de flexibilidade têm-se materializado com o desenvolvimento tecnológico. De facto, o controlo automatizado de cargas flexíveis (por exemplo, veículos elétricos, aquecimento de águas sanitárias ou bombas de água) tem sido implementado em contextos reais, permitindo que um sistema de otimização inteligente consiga desligar ou ligar cargas consoante as necessidades da rede.
Por fim, políticas de eficiência energética continuaram a ganhar importância neste ano e iniciativas como a Vaga de Renovação promovem o retrofit de edifícios existentes, até um total de 30 milhões até 2030 e tendo o objetivo de reduzir em 30% o consumo de energia nesses edifícios. Estes esforços são fundamentais para que a União Europeia consiga alcançar uma redução de 35% do consumo total de energia em 2030 face aos níveis de 2005[6].
Tendências globais e desafios
Globalmente, as energias renováveis alcançaram um crescimento sem precedentes, onde as fontes solares e eólicas viram um acrescento de 600 GW na sua capacidade em 2024[7]. No entanto, apesar de serem valores positivos, a União Europeia tem o objetivo de triplicar a capacidade de renováveis em 2030 comparado com os valores em 2022. Este valor, porém, não se prevê que seja alcançado e que a capacidade de renováveis seja 2,2 vezes superior em 2030 face a 2022[8]. Adicionalmente, a China continuou a dominar o sector das renováveis, contribuindo em 40% para a expansão da capacidade renovável, ao passo que os Estados Unidos avançaram significativamente na capacidade de armazenamento, aumentando a sua capacidade em 80% apenas em 2024[9].
Apesar destes cenários positivos, vários desafios ainda existem. Por exemplo, as nações em desenvolvimento ainda têm uma dependência significativa ao petróleo, têm custos de eletricidade elevados, têm um acesso reduzido a fundos de apoio ao desenvolvimento tecnológico e têm uma economia muito dependente de materiais e construção, o que dificulta a transição para uma geração de energia mais verde[10]. Assim, é fundamental que haja uma cooperação internacional mais sólida em 2025 com o objetivo global de maior sustentabilidade.
FONTES
[3] https://smart-cities.pt/noticias/comunidades-de-energia-renovavel-aceleram-em-portugal-11-04/
[6] https://energy.ec.europa.eu/topics/energy-efficiency/energy-efficient-buildings/renovation-wave_en
[7] https://www.iea.org/reports/renewables-2024/electricity
[8] https://www.iea.org/reports/renewables-2024/executive-summary
[9] https://www.utilitydive.com/news/us-battery-energy-storage-deployments-jump/729248/
